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quinta-feira, 2 de novembro de 2017

ANA PÉREZ-QUIROGA


A ANA PÉREZ-QUIROGA (Lisboa, 1960) e eu combinámos encontrar-nos às 14h, mas eu não desconfiava que a minha visita ao seu atelier duraria até à meia-noite com ida à Galeria Monumental e jantar incluídos. Quando saí da sua casa pensei que não iria saber o que escrever.
Nunca tinha estado onze horas a conversar com uma pessoa que nunca havia conhecido antes sem sequer ter anotado uma única frase. Este texto é um desafio à minha memória.


Quando entrei no seu primeiro espaço, uma sala pequena e naquele momento atulhada, ainda não sabia que a Ana era uma pessoa muito metódica e organizada. Uma certa obsessão por espaços feitos à sua medida e esteticamente agradáveis apressou a justificação de que aquele local não costumava estar assim. Só tínhamos combinado encontrar-nos naquele sítio porque a Ana tinha trabalhos para arrumar. Com o passar do tempo vim a perceber que o seu atelier não se reduzia a um espaço e que aquele sítio era onde guardava alguns trabalhos e recebia pessoas. O que interessava era a conversa que estávamos a ter enquanto me ia mostrando cada objecto. 


Não creio que alguma vez, durante estas horas, tenhamos chegado a um espaço particular de trabalho. A Ana usa a rua, o espaço habitado por toda a gente, os objectos manuseados por todos nós, para construir o seu corpo de trabalho. Não precisa de um espaço especificamente designado para concretizar as suas peças. O seu atelier é a combinação daquilo que vai pensando, da rua, do tempo e das pessoas com quem está, dos passeios e dos sítios onde manda executar as ideias que lhe surgem.


Escrever sobre este atelier é ir descrevendo quase gesto por gesto, conversa por conversa. À medida que o ambiente ia mudando, à medida que a Ana me ia mostrando determinado trabalho ou contando algum episódio da sua vida e eu ia retribuindo com as minhas próprias histórias, fui estando cada vez mais dentro do tom do seu trabalho. 

A Ana conta com os outros para que o trabalho se concretize. Como a própria diz, é uma pessoa muitíssimo sociável; eu diria quase ubíqua. Mas quando lhe perguntei se não gostava de estar sozinha, respondeu-me que por vezes passava dias e dias sem falar com alguém. 


Define-se como feminista e lésbica e afirma que os seus trabalhos falam para mulheres. As questões de género tomaram conta de grande parte da conversa - é um assunto que lhe é muito caro e é também sobre isto que fala o seu trabalho. É sobre a sua condição de mulher feminista em conjunto com outras mulheres e é também sobre o mundo se dividir, pelo menos ao primeiro relance, em dois géneros. Afirma que não há pessoas, há géneros e vontade de corresponder ao estereótipo ou não. Para viver no mundo onde vive é necessário que assuma uma atitude radical. O trabalho que faz, a forma como vê os objectos e os utiliza são consequência dessa condição de mulher, física e cultural, sob a qual nasceu.

Há uma energia vital nas palavras da Ana que é a mesma energia que habita os seus trabalhos. Se a tivesse visitado no dia anterior ou um mês depois, teríamos feito outro percurso, ter-nos-íamos expressado de forma diferente, mas creio que reconheceria este seu movimento interior. Há um vigor naquilo que diz, na seriedade educada com que se expressa que é facilmente reconhecível como sendo a desta pessoa particular. Conversar com a Ana é como estar dentro de um trabalho seu. 


Saímos do primeiro espaço e fomos descendo até à Galeria Monumental, no Largo Mártires da Pátria, onde estava uma exposição da Alice Geirinhas para a qual a Ana contribuiu. Pelo caminho, num passo decidido e rápido que acompanhava a velocidade da conversa, eu ia reparando que a Ana estava impecavelmente vestida de seda. Mais tarde disse-me que desenhava e mandava confeccionar a sua roupa à medida com tecido que trazia da China, onde costuma ir todos os anos para trabalhar. O trabalho é a própria vida e é o que a faz deslocar-se também para o outro lado do mundo. As idas à China começaram com uma bolsa da Fundação Oriente numa altura em que estava a trabalhar sobre o país. Ganhou-a e desde então tem regressado com frequência.


Pelo caminho contou-me que está a iniciar o Pós-Doutoramento, mas foi do Doutoramento recentemente defendido que mais conversámos. Uma parte do mesmo consistiu na catalogação de todos os seus objectos (4888 até 12 de Julho de 2016), na exposição fotográfica online no seu site desses objectos, na possibilidade de se marcar um jantar-performance com a artista, cuja comida é  confeccionado pela própria e na transformação da sua casa tal como a Ana a habita em obra de arte, podendo ser arrendada por duas noites. Este Breviário do Quotidiano #8 pode ser visto aqui.


Cada passo está contaminado pela sensação de que a Ana não quer perder nada, quer estar absolutamente consciente de tudo. A sua parte racional foi muito enfatizada pela própria e é importante que mantenha a consciência alerta. Não foram raras as vezes em que reparou em pormenores que me passaram despercebidos mas que foram alvo da sua atenção. É verdadeiramente atenta e muito presente no sítio onde se encontra.


O seu instagram é um dos seus trabalhos - como diz a própria, é um auto-retrato da artista enquanto parte da sociedade. Um álbum com mais de vinte mil fotografias para o qual a Ana contribui diariamente com bastantes publicações. No caminho a pé que fizemos, parámos várias vezes para fotografar detalhes, objectos ou situações que lhe chamaram a atenção e que não deixou de comentar. A Ana não parou de fazer o que tinha planeado para conversar comigo: prosseguiu o seu dia incorporando nele a minha companhia, conversando sem nunca haver falta de assunto. De facto esta era a única forma que havia para visitar o seu atelier. 


Depois da visita à galeria prosseguimos até sua casa, na Baixa. É o último andar de um pequeno prédio com madeira à vista que cheirava a caril. À porta do andar, a Ana tem uma placa dourada dizendo 'Ana Pérez-Quiroga - Artista' que faz lembrar as entradas em consultórios médicos. Não me pareceu estranho, dado que conversámos bastante sobre a sua relação com a mãe, médica e uma das suas pessoas mais próximas. A influência dos pais sobre si, nomeadamente as constantes mudanças de casa a que se sujeitaram quando a Ana era criança, foi de tal modo determinante que hoje vai para onde lhe apetece sem estar presa a lado algum. Diria que só está presa à condição de artista, apesar de  só ter começado a sê-lo depois dos trinta anos. 


A sua casa é absolutamente o seu reflexo. As cores dos objectos e das paredes são indescritíveis e tudo parece estar no seu sítio. Sente-se que cada objecto foi pensado para onde está, não há outra forma de explicar. Mas tudo dá vontade de usar e vê-se que é uma casa vivida. Tal como a maior parte das casas de artistas que visitei, à nossa volta estavam trabalhos de outros artistas seus amigos ou de que gosta. A Ana não tem qualquer pudor em tirar os trabalhos da parede para me mostrar ou explicar alguma coisa - nada ali é estático e tudo pode ser feito de maneira diferente.


Não requereu ajuda para o jantar, a minha única função foi fazer companhia e continuar a conversar. Tal como havia intuído, a Ana vive aqui e agora e um reflexo disso foi quando me disse que nunca tem comida no frigorífico apesar de gostar muito de cozinhar. Compra sempre frescos, comida do dia, que cozinha no próprio dia. Durante a confecção do jantar baixei a guarda e a máquina fotográfica. 
Como disse a Ana, a comida desinibe tanto como o vinho. 

Foi com uma conjugação de ambos que terminámos a noite.

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O Instagram da Ana é este e o site da sua casa, este.
É para o seu mail no site que se pode marcar jantar e/ou estadia.

Há também o seu Facebook e blog :)

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

MÁRCIA BELLOTTI e LUIZA PORTO RIBEIRO

À esq: Márcia Bellotti
À dir: Luiza Porto Ribeiro

No dia em que escrevo este texto, a Márcia Bellotti e a Luiza Porto Ribeiro já não habitam o pequeno apartamento que era também o seu atelier. De facto estão a mais de 8000 km da sua casa portuguesa: após dois anos e meio a viver em Portugal, regressam ao Brasil para uma pausa e para matarem saudades da família. 


A pequena sala iluminada estava transformada no atelier onde ambas trabalhavam. Não precisam de muito espaço e como vieram ter a Portugal inesperadamente, não trouxeram objectos desnecessários. 
São um casal há quase uma década e foram começando a desenvolver o seu trabalho em conjunto. Mas antes de serem dupla, trabalhavam individualmente. A Luiza estudou cinema, edição e montagem, design e música e trabalhava por conta de outrem, apesar de quase secretamente desenvolver trabalho pessoal. A Márcia sempre desenvolveu trabalho pessoal na área do cinema e das artes visuais.


Vieram ter a Portugal em 2015 através do Art Institute. De lá até cá foi um instante mas a permanência em Lisboa foi um desafio. Luiza tinha dupla cidadania, mas Márcia veio para Portugal sem visto de residência. Fui uma luta até obtê-lo e isso fê-la pensar na condição dos que estão ilegais. Sempre empatizou com o tema, mas nunca o tinha sentido na pele; houve até uma ocasião em que precisou de ir ao hospital e lhe foi negado atendimento.


Ambas consideram que contribuem para o trabalho individual de cada uma de forma indirecta. É porque partilham conversas quase vinte e quatro horas por dia que se vão influenciando mutuamente e isso ajuda a que se compreendam melhor, o que contribui para a boa qualidade daquilo que querem fazer.

'Carta de Recusa'

À Márcia interessou sempre temas relacionados com a intimidade sexual e de género dos indivíduos. Até agora os seus trabalhos contavam sempre com a participação de outras pessoas. Quando vivia no Brasil, colocava anúncios pedindo pessoas que pudessem partilhar com ela a sua intimidade e como havia um número considerável de resposta, as pessoas passavam por um processo de selecção. O número era reduzido às pessoas que lhe interessavam e a partir delas, trabalhava.


Quando chegaram a Portugal, tentou fazer o mesmo. Contactou com associações LGBTQ que aprovaram com entusiasmo a sua ideia. Mas quando chegou altura de pedir a pessoas que participassem, nem um participante obteve. Não esperava que isso acontecesse e pensa que talvez as pessoas tenham tido medo do julgamento - como elas próprias julgam tanto os outros, não querem sentir que são julgadas da mesma forma agressiva.


Ainda houve alguém que lhe respondeu, disposta a partilhar a sua intimidade sexual com a artista. Mas quando Márcia se preparava para receber a pessoa, esta enviou-lhe uma carta de recusa: afinal não se sentia confortável em falar com uma desconhecida. 
Ambas pensam que no Brasil isto não acontece porque, da mesma forma que as pessoas são mais agressivas, também têm menos medo de se mostrar, de se expor. O julgamento funciona como força para continuar e os Lisboetas, pelo contrário, deixam-se abater por esse julgamento. 


Como ninguém respondia aos seus anúncios, Márcia tentou outra abordagem. Pensou que talvez o problema fosse mostrar a cara, então colocou um novo anúncio: pedia que lhe enviassem objectos que fizessem parte 'do quarto', das relações sexuais. Em troca e como agradecimento, enviaria um objecto seu. Contanto com um avultado número de envios, recebeu um único objecto que pode ser visto aqui. A partir de agora os seus projectos passaram a ser fruto da rejeição.



Quanto a Luiza, o caso é diferente. Começou a tecer e a bordar recentemente e quando é questionada sobre o seu trabalho, a sua personalidade tímida sobressai e afirma que ainda não está pronta para dizer alguma coisa sobre ele. É recente esta forma de expressão, começou há cerca de dois anos, desde que chegou a Lisboa. Iniciou com desenhos, conjuntos de linhas que faziam estas formas, para depois evoluir para o bordado. A partir daí, sente que não consegue fazer outra coisa senão acordar e começar a trabalhar, para nunca parar até ao final do dia.


Tornou-se uma espécie de obsessão, própria de quem está a descobrir uma coisa com a qual se identifica. Obviamente que também lhe interessa a expressão da sexualidade feminina, mas tem dificuldade em chamá-lo feminista. Ficamos assim: é o que é, qualquer coisa que ainda não tem nome. É o trabalho de Luiza.



Se preferem viver em Portugal ou no Brasil? Apesar da dificuldade em manter o tipo de trabalho, em Portugal, sem dúvida. O silêncio é aquilo de que mais gostam, mas a liberdade de poder andar na rua sem pensarem em mais nada que não no caminho soma pontos. As pessoas habituaram-se a andar em transportes públicos e a sentir a tensão de poder ser incomodadas a qualquer momento. Descrevem isto com medo, como se houvesse sempre um medo no ar que já é tão natural que parece que não existe. O problema é que existe e asfixia.


Se no Brasil eram mais livres na expressão artística, em Portugal conseguem ter outra qualidade de trabalho e usufruir do tempo de forma mais proveitosa. Têm também uma preocupação a menos porque obtêm rendimentos que não da arte, o que lhes permite fazer exactamente aquilo que desejam. Mas, dizem, essa é uma liberdade aparente: é inevitável (e incómodo) estarem presas à necessidade de aprovação externa.



Sentem que agora o seu trabalho chegou a um ponto de viragem. Depois de terem exposto na MUTE, e Lisboa, é hora de terminar esta pesquisa de dois anos e começar uma nova. É o que estão a fazer neste momento.

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Os instagrams da Márcia e da Luiza apresentam uma boa parte dos seus trabalhos. 
São utilizadoras assíduas!

Os seus sites estão à distância de um clique: