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terça-feira, 9 de maio de 2017

RODOLFO BISPO



O Rodolfo Bispo vive em Odivelas, numa rua que é estudada no curso de Arquitectura como exemplo de péssimo plano urbano. É assim que ele se posiciona: está inevitavelmente onde está. Dá-me a entender que estamos todos, na maior parte das vezes, numa posição que nos constringe, mas se formos inteligentes, podemos usar essa posição como motor. Há uma infinidade de possibilidades, mesmo tendo em conta as limitações inevitáveis e é possível, segundo ele, ter uma família, um trabalho consistente e um atelier a convergir no mesmo espaço. 

"I fear but only
my social death"
A primeira coisa que reparei foi na casa 'clean' que contrasta com aquilo que os seus trabalhos são: referências sobrepostas, rápidas, com muitas camadas de tinta, e sem medos. Os seus trabalhos são livres, vivos e felizes, que se desenvolvem num espaço com uma luz invejável. 


O seu espaço de trabalho é partilhado com a Sara, que é designer, e a filha de ambos, que tem dois anos. Trabalham a partir de casa e não têm zonas específicas para cada um. Mesmo não tendo um espaço próprio, quando está a preparar exposições, o Rodolfo toma conta de tudo o que é chão, paredes e mesas e todo o espaço é seu. 


Às vezes trabalham em conjunto: a bebé pinta desenhos que depois servem de inspiração e referência para o Rodolfo. Há Abelhas Maias, personagens da Disney e outros desenhos animados que, à partida, não teriam outro fim senão o de entreter durante alguns minutos. É também frequente o Rodolfo fazer esboços que a Sara acaba por utilizar no seu próprio trabalho.

"Annie Hall
White Stripes"
À medida que ia tirando debaixo da cama inúmeras telas enroladas e dobradas, fui reparando que aquilo que me chamava a atenção no primeiro olhar não era o que me fazia ficar presa ao trabalho. As camadas que o seu trabalho tem são tantas e com origens tão diferentes que somos obrigados a mudar de pensamento à medida que o olhar vai passando pela pintura. Mas nem os seus trabalhos nem o discurso do Rodolfo são confusos. Pelo contrário: ele fala sempre de uma forma tão limpa e despojada que não há como não querer continuar a conversa. 


As questões políticas são uma das suas preocupações e isso agudizou-se com o nascimento da filha. Perturba-o que as pessoas vejam sempre a partir do lado ocidental, americanizado e europeu dos problemas e que não pensem que os terroristas, às vezes, somos nós. É também por isso que desenha e que pinta tudo o que pode, sempre que pode. Tem a certeza que não pode mudar ninguém, mas às vezes uma referência qualquer num quadro seu chama a atenção a alguém que virá ver com mais detalhe. Esse momento pode ser decisivo para o sujeito se consciencializar, ainda que sem querer. 


Falar de espaço, no caso do Rodolfo, é falar essencialmente do seu espaço mental. A sua expressão não está espalhada pela casa porque ela não é um atelier, mas fica imediatamente clara quando começa a falar. As suas preocupações são desenvolvimentos daquelas que já estavam presentes no curso de Pintura, mas agora sente que consegue explicá-las melhor.


O sentido de humor do Rodolfo é apuradíssimo. De facto tentou fazer stand up, mas a experiência não foi bem sucedida. O stresse que sentia em palco era mais do que conseguia aguentar e desistiu dessa ideia. Apesar disso, o seu twitter é uma boa expressão daquilo que quero dizer e espelha também que tipo de preocupações tem. 


O Rodolfo acha sempre que aquilo que pinta é óbvio e auto-explicativo. Sempre que lhe pedi para me clarificar qualquer coisa acerca dos seus trabalhos, era como se lhe estivesse a pedir para me descrever aquilo que estava à frente dos meus olhos. E tinha razão, estava. O que lhe interessa, diz-me, não é a perspectiva que ele tem sobre o que faz, mas de que forma as pessoas lêem e até onde vai a sua interpretação. O seu trabalho termina onde termina a tela, depois é a vez do observador. E ele gosta de ficar a ouvir o que as pessoas têm para lhe dizer, o que estão a ver que ele não viu.


Quando trabalhou no CCB depois do curso ter terminado teve duas experiências que o marcaram. Passou muitíssimo tempo a ler e começou a fartar-se de histórias, de romances. Começou a ler ensaios filosóficos e sente que os seus trabalhos ganharam outra dimensão. Como era assistente de exposição, ficava muito tempo no mesmo sitio a dar indicações para a casa de banho e, ocasionalmente, tinha conversas interessantes e diferentes sobre as obras que via todos os dias. Podia ouvir as pessoas que estavam absolutamente disponíveis para falar sobre a colecção sem medos.



Ultimamente tem desenhado em cadernos, muitas vezes padrões, formas repetidas, confirmando que há um certo descanso na repetição. Gosta de trabalhar com barulho: música, televisão, conversa, podcasts ou rádio, muitas vezes em simultâneo, e de ir apanhando as referências, de deixar ecoar nas suas pinturas e desenhos aquilo que está imediatamente ali. Os seus trabalhos demoram tempo a ver e todos eles têm elementos reconhecíveis, sejam escritos ou não. 




O Rodolfo pinta até ao final da tela, usando toda a sua área. Diz que se entusiasma, mas que depois não sabe como esticá-la e engradá-la sem ferir a pintura. Algumas telas são pintadas com tinta de ardósia preta, apresentado possibilidades de intervir de outra forma no quadro depois de terminado. Como se houvesse sempre mais por dizer e o Rodolfo o previsse.



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O Rodolfo Bispo tem Facebook e Instagram
Mas o que é mesmo, mesmo fixe é o seu Twitter ;)



Os seus trabalhos estão disponíveis aqui.



domingo, 16 de abril de 2017

ANA RAFAEL | Atelier Cabine



Fui ao atelier da Ana Rafael há bastante tempo: de facto, quando lá fui da primeira vez, ia com a intenção de visitar o novo atelier do Hugo Bernardo.



Sabia que o Hugo o partilhava com outras duas pessoas, a Marília e a Ana. A ideia seria falar sobre o novo espaço dos três, o Atelier Cabine.



O Atelier Cabine fica nos Anjos e está aberto ao público em dias definidos pelos artistas. Era uma antiga padaria que, com a chegada do trio, foi remodelada e agora é um enorme open-space com zona para joalharia e um amplo espaço sem qualquer divisão física onde a Ana, o Hugo e a Marília trabalham.


A Marília não estava presente e a disposição dos materiais do Hugo era mais ou menos a mesma da de casa, bem como o seu trabalho que, segundo ele, está prestes a dar uma volta. O que me chamou a atenção e foi verdadeira surpresa para mim foi o trabalho e a personalidade da Ana Rafael.


O Hugo trabalha lá ao fundo, a Ana trabalha na zona do meio e a Marília, próxima da entrada. Estar na zona da Ana é estar um pouco entalado, apesar do espaço ser desafogado. Mas é uma zona que está à mercê. Porque a Ana é silenciosa e o seu trabalho minucioso e de movimentos pequenos, não parece importar-se com o grau de exposição. A sensação que o espaço transmite é a de algum contágio, mas os artistas garantem que cada um se ensimesma e não se incomodam uns aos outros.



A Ana é uma artista que trabalha essencialmente com papel, colagens e recortes. Começou em Pintura nas Belas-Artes mas mudou para o Ar.Co porque sentia que precisava de outro tipo de ensino. Uma coisa mais prática, diz ela. Não que a teoria não seja importante, mas o esquema de ensino nas Belas-Artes não era aquele que melhor a estimulava a desenvolver o trabalho que queria fazer.


Repetiu-se ao longo da conversa quando falava da sua relação com os objectos. Dá-se melhor com coisas do que com pessoas, a linguagem é a mesma. Antes, quando estudava na universidade, pintava outras coisas, muitíssimo diferentes daquilo que é o seu corpo de trabalho hoje. Agora, sente que se entende consigo de uma forma mais séria e sincera, também influenciada pela terapia que faz.


O seu espaço de trabalho está repleto de pequenas coisas. Cada canto tem muito para ver, é impossível dar uma vista de olhos rápida. O tempo de olhar para cada recorte é o tempo de olhar para uma coisa que nos é familiar de alguma forma, mas não sabemos bem de onde. Todas as coisas se movem, todas as coisas correm por cima da mesa e mudam rapidamente. Nota-se que tudo está fora do lugar final e que o seu trabalho é de persistência, de insistência. A tentativa e o erro estão à frente dos nossos olhos.


Aquele espaço parece enorme em comparação com a minúcia do trabalho da Ana. Dá-me a sensação de que o seu trabalho foi sempre feito num espaço pequeno e que ele era do tamanho possível. Quando lhe pergunto se acha que o trabalho vai mudar influenciado pelo espaço, responde-me que é possível, mas ainda sem grandes certezas. Precisa só de uma mesa e de uma cadeira. E de não pensar enquanto executa a tarefa de seleccionar imagens e recortá-las. Está ali, numa espécie de transe, e depois logo pensa, logo se torna consciente quando olha para os pequenos objectos.


A Ana falou na capacidade do seu trabalho mudar uma série de vezes. Não significa que não tenha uma base, um movimento que segue numa determinada direcção. Mas essa consciência de si, que a Ana refere várias vezes, não implica que não se deixe ir. Construir um corpo de trabalho, que começa agora a ganhar uma forma mais definida, implica estar à mercê daquilo que lhe acontece e a Ana parece disposta a isso.



É calma e segura a falar. Quando conversamos, primeiro pouco e envergonhadamente, para depois a conversa se tornar reveladora e à vontade, é claro que a Ana está à procura de um ponto de equilíbrio.  Usa aquilo que tem e diz que o que lhe importa é fazer, fazer muito e o máximo que conseguir. O que acontece aos trabalhos depois de estarem concretizados já não lhe diz respeito. Só pode agir num momento, o da execução, e por isso escolhe fazê-lo com o cuidado e respeito devidos.





A zona de trabalho da Ana parece tender a tornar-se um organismo da natureza. Parece poder encontrar-se aí, como às vezes se encontram coisas estranhas. Parece que um humano decidiu mudar-se para a floresta e levou consigo o grau mínimo de humanidade que necessita para se identificar. Fez-me lembrar uma pegada estranha de um animal desconhecido: nada destrói e é uma coisa da natureza, mas sabemos que aquele é o seu lugar e nós é que o estamos a invadir.



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A Ana Rafael pode ser contactada através do seu facebook e o seu site pessoal está actualizado! :)