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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

ANA JOTTA

Quando se sobe as escadas de um prédio em Campo d'Ourique, pisa-se um tapete no andar do meio que tem escrito a palavra FIRMEZA. Se continuarmos a subida até ao último andar, as paredes transformam-se em azul-piscina e há uns trabalhos à porta.


A Ana Jotta abre-ma com um sorriso de espanto. Diz-me que aprecia a minha pontualidade, mas que não conta com a precisão das pessoas no que quer que seja. Sem saber, esta frase iria determinar todo o nosso encontro, nem demasiado longo, nem demasiado curto; três horas de conversa a sério, sem floreados ou prepotências. Sem tempo para falar de banalidades nem de coisas que não lhe interessam e com uma noção muito precisa do espaço e do tempo que eu precisei para ir processando o que me dizia, a Ana recebe-me com acolhimento.



O hall de entrada leva-nos até à cozinha, que é sala e que se transforma em quarto também. As portas e as paredes desaparecem por trás de tantas coisas que as cobrem. Os objectos estão dispostos de tal forma que a casa arrumada parece um único rolo de papel de parede com relevo. É muito habitada, muito vivida, e sente-se imediatamente que o tempo em que a Ana vive não é o tempo cronológico. A sua casa é fluída e as divisões podiam ser uma só: as paredes não dividem nada, quase existem por exigência arquitectónica. Mas apesar de não terem a função de divisão, têm a de permanente estímulo visual e é impossível não querer trabalhar naquele ambiente.



O atelier entra quarto dentro, avança pela sala, pelo primeiro andar do triplex e pelo sótão. Uma das coisas impressionantes é a quantidade de espelhos de todos os tipos: ora horizontais, ora verticais, daqueles que aumentam a imagem. Há também de corpo inteiro, novos e antigos. Estão impecavelmente limpos e nalguns momentos podemos ver-nos em dois espelhos em simultâneo. Sobretudo podemos, em qualquer posição, reparar nalguns objectos que não repararíamos se os olhássemos de frente, porque se perderiam no meio dos outros. Os espelhos enquadram esses objectos e por isso podemos isolá-los do todo. São uma espécie de quadros que se metamorfoseiam consoante a nossa posição.



Não há como evitar a sensação de que estou dentro de um gigantesco trabalho. Quando ainda não tinha percebido que a Ana não trabalhava ali - isto é, que não praticava ali o ofício, que aquele não era o espaço da execução plástica - disse-me que aquela era ela. Não era a sua casa, era ela e que não estava a visitar o atelier, estava a visitá-la a si. 

Para atelier, diz que precisa de um espaço com paredes vazias, um chão e talvez uma mesa. É tudo. E que não o tem neste momento porque não trabalha há um ano. 
O tempo pelo qual as exposições se constroem, com a azáfama de transportar trabalhos, ir aos sítios e fazer conversinhas não se coaduna com o tempo de pensar no trabalho, muito menos com o tempo da sua execução. Com uma expressão melancólica, diz-me que há um ano que anda a acumular 'lixo' dentro de si e que aquilo terá que sair assim que possa estar por conta própria. Tem-se ocupado com organização de exposições que, mesmo com o apoio dos curadores, a fazem perder tempo.


Subimos até ao sótão directamente. De repente estamos uma enorme sala escura cheia de reentrâncias. Bonecos estranhos, papéis variadíssimos, pedaços de coisas por todo o lado, coisas que eu nem sei o que eram, iam aparecendo a cada momento. Um sofá de dois lugares ocupava o centro da sala, mas nem sequer se pode falar em centro no sentido estrito do termo porque a cada dois passos meus, estava noutro sítio da sala que me parecia central. Quando a minha perspectiva mudava, via muito mais do que tinha visto antes e o centro onde o sofá estava, aparentemente o local com vista privilegiada, deixava de sê-lo.
Estar em qualquer lado da casa da Ana, mesmo que seja contra uma parede (sobretudo quando é contra uma parede!) é ser imediatamente impelido a pensar e a fazer.


Foi no sótão que conheci a Dezembro. A Dezembro é uma gatinha preta bebé, com quem a Ana fala com doçura. Há muitas fotografias de outros gatos espalhadas pela casa. Não é que não goste de pessoas, mas em geral aborrecem-na.
Outra particularidade da sua casa é a arrumação. Tudo parece ter um lugar e não parece arbitrário. Mas o mais incrível são as camadas: não há um sítio que tenha só aquele objecto, porque se olharmos bem, há outro por trás e mais uns quantos. Até os tapetes se sobrepõem.



O espaço do meio, entre o piso da entrada e o sótão, foi o que a Ana chamou terra de ninguém. É uma espécie de quarto de vestir, onde a roupa só ocupa um pequeno espaço lá ao fundo. Tudo está à vista, está ali mesmo à mão. É por ser tudo cru, por cada objecto ter o aspecto de que a coluna vertebral está à vista, que me senti intrusiva.


O espaço de uma galeria lembra-lhe uma casa mortuária, com as paredes todas despidas. Ou um espaço passado passado a limpo. Quando vê uma parede branca, começa a imaginar naquilo que ela se pode tornar. 
O seu trabalho não é bem ela, porque ela está aqui, a conversar comigo. O trabalho é o trabalho, que vem dela. Uma pessoa não se expõe, expõe o seu trabalho.


O seu quarto, de paredes verdes e pretas, é luminoso e feliz. Por cima da cama há centenas de imagens, desde postais a fotografias e recortes. Há muitíssimos CD's e a zona da cama faz lembrar aqueles covis que eu construía em criança, com lençóis e cadeiras, onde fazia jogos com lanternas e livros. 


 Quando lhe perguntei de que artistas gosta, elegeu alguns pintores. Adora pintura, a pintura que reduz tudo a uma superfície que achata. Está cada vez mais para dentro. Sai de casa para comprar pão, ir ao cinema e pronto - nem sequer está interessada em ter uma vida social.
É como se a Ana estivesse numa fase de expansão mas admirasse quem percorre o caminho oposto.


Por esta altura eu já pouco falava e a Ana dominava a conversa com entusiasmo. Não havia mais perguntas que lhe quisesse fazer, não porque não me interessasse, mas porque estava boquiaberta com a sensação que o espaço me estava a provocar. A sua casa é feita de restos, de sobras de todos os dias, as coisas que ninguém dá conta e que não conseguem ver. Ela transforma, ela sabe modificar: é uma estação de resíduos sólidos onde se recicla. Fico curiosa acerca do seu critério: o que é que deitará fora? O que poderá subir ao pedestal de já não servir nem para si?


É uma pessoa de muitas palavras e tem sempre coisas a acrescentar. Explica-se e volta a explicar-se com tanta vontade e energia e disse-me que podia olhar para onde quisesse, fotografar o que quisesse, mas que não a filmasse a ela. Podia filmar a casa sem problema algum, mas reparei que sempre que começava a fotografar ou a filmar, a Ana desviava os olhos, brincava com a Dezembro ou ia-se embora daquela divisão.


Ofereceu-me café que eu recusei por cerimónia. Enquanto a Ana o bebericava, ia falando sobre a ignorância e vontade de cultura. Não há cultura, estivemos parados quarenta anos e outros quarenta a tratar de coisas mais urgentes. Não tivemos tempo nem dinheiro. A educação demora muito tempo para se ter e necessita de outros meios que não temos. Não há um verdadeiro ministério da cultura, as bolsas são para inglês ver e orgulha-se de nunca ter precisado do Estado para fazer o que faz.


O seu individualismo é invejável. Não gosta de grupos, de classificações, de ordem imposta ou instituída; não quer fazer parte de nada porque isso não a acrescenta. Já é difícil ser ela própria e não poder deixar de ser quem é.



O seu trabalho, a sua casa, o seu pensamento sempre tão coerente e seguro reafirmam que deixar de ser artista, só quando o corpo lhe falhar.

Felizmente teremos sempre uma Rua Ana Jotta.

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Este atelier foi publicado no P3!
Lá pode ver-se o mesmo texto com outras fotografias e um vídeo ;)

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

MALIA POPPE

É possível ir à cabana do Thoreau a trinta minutos de comboio de Lisboa. Chega-se à Portela de Sintra, anda-se dez minutos de carro por entre arvoredos cada vez mais densos e encontra-se uma casa enorme. Mas em vez de entrar, subimos umas escadinhas até a uma portinhola verde que abre para dentro de uma sala muito acolhedora.
Estamos em casa do Malia Poppe.

Esta é a vista da sua casa.
Eu julgava que o Malia era indiano mas não: nasceu em Lisboa como José Maria. Malia vem do atropelamento dos r's quando era criança e tornou-se o seu nome. Viveu em inúmeros sítios, mas regressou a Sintra, onde foi educado. Apesar de ter 65 anos, tem absoluta consciência da morte e por isso vive muito bem. Suponho que o conforto imediato que senti ao lado do Malia venha da sua absoluta paz de espírito, como se estivesse a conversar com alguém que já morreu, ressuscitou e decidiu aproveitar aquilo que tem. Estar com esta pessoa é ir muito dentro.



Não foi fácil ser Malia: não teve um crescimento simples, não gostava da escola, não se rodeava das melhores companhias. Mas, contas feitas, é um privilegiado por ter uma boa família que é o seu suporte emocional.



Com a morte do pai aos treze anos, teve que mudar de colégio para a mãe conseguir suportar o encargo. Chumbou o primeiro ano na escola nova porque, sendo nas Janelas Verdes, passava os dias no Museu de Arte Antiga. Quis ir para a António Arroio, mas não deixaram: um dos irmãos convenceu a mãe de que ser artista não era vida.



Viveu no Brasil e voltou a Portugal sem nunca trabalhar próximo das artes. Um dia, um dos sobrinhos propôs ir ao dia da criança no Ar.Co. Gostou tanto que decidiu inscrever-se. Fala de todos os professores, que entretanto se tornaram seus amigos, com muita doçura, como se lhes estivesse agradecido por alguém ter visto uma parte sua à qual ninguém tinha prestado atenção.




A sua casa-atelier tem duas portas para a rua, uma em cada lado do minúsculo espaço, como se aquela zona fosse só uma paragem no percurso. O Malia sai e caminha muito, por horas, sem qualquer preocupação. A sua conversa faz lembrar a poesia de Manoel de Barros: muito simples e, também por isso, desconcertante. Sempre no ponto, sem nunca perder o raciocínio. Não tem ânsias de grandiosidade nem é pretensioso: está cá da melhor forma possível.




Contou-me que adora os sobrinhos, que são eles que lhe dão alento. Exactamente no meio da sala está a cadeira que foi da sua mãe, de quem o Malia tomou conta no final da vida. Agora senta-se na cadeira como se se sentasse ao colo da mãe.



Não pode trabalhar muito tempo de seguida, fica com a vista cansada e doem-lhe as costas. Cada risquinho que faz é quase em contra-relógio, sabendo que não poderá desenhar um dia inteiro sem pausas. Então aproveita-o a sério, porque as pausas são obrigatórias. Mas não se sente infeliz quando termina o seu tempo de trabalho; ouve o corpo e vai fazer outras coisas.



A simbiose entre atelier e casa obrigam-no a olhar para o trabalho todos os dias e a estar à vontade com os seus fantasmas. Se antes gostava de sair até tarde, se era uma pessoa festiva, agora deita-se e levanta-se cedo. Está muito confortável com o lugar que ocupa, com aquilo que o seu trabalho é e com a forma como organiza a sua vida.



Há um certo tom melancólico na sua voz, mas também infantil e alegre. Nos seus passeios, vai recolhendo rochas sob um critério só seu. A determinada altura foi até à sua colecção e escolheu uma delas para me oferecer. Essa rocha pousa agora na minha estante, à frente de alguns livros. Vou recordar-me sempre do dia em que me disse que, antes de ser artista, é Malia Poppe e com essa consciência pode ser qualquer coisa.

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O facebook do Malia é este e vale a pena olhar para este álbum

Para ver Pequenos Formatos de alguns artistas deste blogue, 

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